Perspectivas e considerações sobre etnografia e folclore.

22
Nov 08

 

Imagem captada na Cavada, Telhadela, no início dos anos 60 do séc. XX. Do ponto de vista etnográfico transmite alguma informação, que no entanto deve ser alvo de cuidada análise, pois contém dados menos correctos.

O primeiro dado a reter confirma a tradição oral local - efectivamente até meados do séc. XX o linho foi fulcral na economia caseira em Telhadela.

É notável a capacidade de síntese desta foto no que concerne ao ciclo do linho na sua vertente doméstica.Vejamos.

Ao centro a maçar o linho Manuel Bastos, à esquerda deste, mulher a trabalhar na dobadoura, no sentido retrógrado, o acto de espadelar, de seguida várias mulheres a fiar com a sua roca e fuso, por fim jovem a passar para o sarilho o fio proveniente do fuso.

Ao contrário do que possa parecer a um olhar menos atento, as jovens não estão trajadas com roupa tradicional da região, mas sim com trajes uniformizados, fruto das orientações folclóricas imanadas do Estado Novo através do (SNI), Secretariado Nacional da Informação e da (FNAT), Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, infelizmente ainda persistem até aos nossos dias exemplos de Ranchos que são o prolongamento temporal destas orientações e que em nada dignificam os ancestrais usos e costumes nacionais.

Como afirmou Carlos Ribeiro " O Estado apoiava grupinhos para agradar, colorir e nada mais".

Há no entanto dois dados a fixar nesta foto, a nível de trajes; os chapéus redondos de veludo, com ou sem pluma usados pelas senhoras eram efectivamente de tradição local, estes exemplares ostentados na foto eram originais, o mesmo não podemos dizer dos lenços, mas no entanto estão colocados na cabeça em conformidade com o uso local, a aba do lado direito presa no rebordo do chapéu, a da esquerda caída sobre o ombro.

Por fim repare-se junto ao palheiro, um jovem envergando um varino, este(s) exemplar(es) ainda existe(m), o jovem também. Curiosamente este varino esteve exposto na 1ª Mostra Etnográfica, realizada em 2001. Sob conselho do Núcleo Etnográfico, actualmente faz parte dos trajes do Rancho da Ribeira

1 - Aqui falta figurar a tecelagem, nomeadamente a urdideira e o tear, por óbvias razões.

2 - «Aspectos do Folclore Ribatejano», IV Congresso de Folclore do Ribatejo, 1994.

publicado por byelaeskura às 10:16

02
Nov 08

 

Aquele que seria hoje o maior tesouro etno-tecnológico de Telhadela e da região encontra-se em absoluta ruína; falamos do famoso lagar do azeite de Telhadela. Abandonado desde meados do séc. XX  ao que nos disseram devido à progressiva escassez de azeitona. Esta desapareceu por completo das nossas oliveiras devido à abertura do complexo químico de Estarreja. Os ventos vindos de oeste traziam (trazem) substâncias químicas que “arejam” (expressão local) a flor da oliveira, com a queda desta o processo de desenvolvimento da azeitona não tem continuidade.
 O lagar do azeite em Telhadela era composto por duas prensas de vara, era um dos raríssimos lagares do azeite compostos por um par de prensas de vara existentes no distrito de Aveiro.
 Se não tivesse sucumbido à incúria dos homens; nos dias de hoje seria uma referência obrigatória no circuito do etno-turismo da região.
 Os compêndios afirmam que quando há duplicação ou mais de um meio de produção em determinada região indica que existem grandes quantidades de um determinado produto e como tal é preciso dar escoamento à sua produção.
 A sua construção não será anterior ao séc. XVII pois a produção de azeite ainda neste século era muito escassa e destinada essencialmente a iluminação, particularmente de carácter litúrgico.
 

 O que resta do lagar

publicado por byelaeskura às 21:01

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